domingo, 19 de dezembro de 2021

Toti

 

Toti

Lá pelos meus 6 ou 7 anos de idade, ia sempre com minha mãe e meu irmão à Cascata dos Amores, como fazíamos todos os dias, nas férias em Teresópolis. Passávamos por uma rua que subia, com muito verde e ar puro, e eu não conseguia chegar lá em cima sem fazer minha mãe bater na porta de alguma casa pedindo um copo d’água para mim. Nessa época, meu pai ficava no Rio durante a semana, trabalhando, e mamãe, meu irmão e eu, no apartamento do ex-hotel Higino, o imenso Edifício Teresópolis, um tesouro de lembranças gostosas.

Pois bem, era uma linda manhã de verão em Teresópolis e naquele dia íamos só minha mãe e eu pela tal rua que subia, passando pelos muros verdes das casas, respirando o ar puro, as duas distraídas, quando ouvimos o choramingar de um cãozinho que estava embrenhado nas folhas, um filhotinho desamparado que nos cativou imediatamente. Quase não pensamos ao decidir levá-lo conosco. Foi a alegria da criançada ver aquela bolinha peluda correr pelos corredores do prédio, levando o síndico mal humorado a mais uma crise, além daquela que se manifestava ao ver a pirralhada sentada nos braços das poltronas do hall. Só rindo, ou sorrindo, talvez seja melhor. Enfim, Toti foi o nome que lhe demos, alimentado com paõzinho molhado no leite, porque ninguém ali tinha outra ideia de como alimentar um bebê canino.

A semana passou cheia de alegria, todos ansiosos para meu pai chegar e conhecer Toti, o novo rei da casa. E ele chegou, final de semana, todo feliz para nos contar a surpresa que tinha à nossa espera lá no Rio: um cachorrinho. Parece filme, mas não é, e um dos dois cães ia ter que sair da família. Ao conhecermos o cachorrinho carioca, preferimos o Toti, já íntimo e amado a essa altura do campeonato.

Toti cresceu lindo, e em alguns meses tornou-se um vira-lata elegante e brincalhão. Mas um dia, se excedeu nas brincadeiras e sem querer me arranhou. Foi o suficiente para ser despejado e enviado para o sítio da secretária do escritório de papai. Nunca mais o vi, mas soube que estava feliz, e já tinha até filhotinhos. Trauma para uns, sabedoria para outros.

Ah, pontos-de-vista diferentes! Circunstâncias ditam reações muitas vezes dolorosas para os pequenos que não enxergam riscos nem aceitam perdas. Prefiro, hoje, entender que encontros felizes são presentes que recebemos pelo caminho, e que depois das trocas, caminhos se diversificam. Não há como ter tudo o que vivenciamos, ao mesmo tempo, no foco da consciência, e para isso existe a saudade. Ela funciona como uma espécie de gatilho: traz para perto de nós memórias e aí verificamos se cabem reativações no momento presente. Toti tornou-se uma dessas deliciosas lembranças que nos lembram sobre o imprevisível, sobre aquilo que torna a vida uma grande aventura. E que me transporta pelo tempo, me faz sorrir.

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