terça-feira, 26 de setembro de 2017

Autoestima, uma montanha russa?

Autoestima, uma montanha russa?
Trabalhar a autoestima é o lema do dia. Parece ser algo que sobe e desce, domina as conversas atualmente, como uma espécie de montanha russa, justificando atitudes. Passeia por conceitos e manuais dos mais variados enfoques, ensinando, supostamente, como se faz isso. É preciso gostar de si mesmo para gostar do outro, dizem uns. Não! É gostar do outro mesmo que não goste de si mesmo, dizem outros. Contradições, questionamentos, e por aí vai. Essa é apenas mais uma reflexão, eu sei, mas como ninguém tem a torta inteira, algumas fatias podem nos levar a pelo menos acender mais uma luzinha na estrada.
Pra começar, segundo o que nós, seres humanos, podemos alcançar, estamos nesse planeta e temos histórias pra contar. Ponto. E as mais variadas versões, com a colaboração de nossas emoções, conscientes ou não, nos ajudam a construir significados. Tiramos conclusões sobre quem somos avaliando os atores e cenários de nossos romances, dramas, e interpretações às vezes magistrais, mas nem sempre tão gloriosas. Nossas vidas lembram uma estante a quem se pede que arrume os livros e o móvel com suas quase infinitas possibilidades. Quais são os limites para pensamentos e imaginação, alguém sabe? Nossas histórias têm o papel principal na compreensão da autoestima, incluindo o pacote de interpretações sobre nossos equívocos e/ou superações, sempre muito relativas. Afinal, com as infinitas formas de se abordar essa questão, vale aquilo que cada um acreditar que é a sua realidade, já que é essa que vai determinar, em última análise, qualquer tipo de avaliação ou até transformação.
Sugiro um exercício que utilizei bastante no consultório para desatar nós emocionais no processo de psicoterapia: peguemos uma foto antiga, lá da infância, onde aparecemos com nossas carinhas registradas por alguém que teve sabe-se lá que intenções ao fazer isso. Pegou a foto? Estamos tristes, alegres, apáticos, quais as lembranças que são imediatamente acionadas? Fiquemos alguns minutos recordando, desacelerando, respirando, sentindo. Não deixemos passar batido os flashes, as setas que  mostraram o início do caminho, a bússola existencial, os primeiros valores, e as deduções infantis, ainda imaturas. Calma! Se doer, respire, vá em frente. E se for bom, curta a lembrança, solte-se um pouco, desligue o piloto automático, porque não duvide de sua importância nos dias atuais. Pode estar apontando para a necessidade de nos despedirmos de ideias que nos fizeram companhia nesse mundo enorme, ou de dar a elas um “up”, criando novas alternativas. E se o nosso estar no mundo estiver relacionado com as infinitas vezes que ouvimos e assimilamos interpretações contaminadas pela visão alheia?  Bem, nós poderíamos dizer que a “culpa” é dos pais, da vida, do destino, do karma e até dos astros, mas o problema continua sendo nosso.
Peguemos agora uma foto mais recente. Algo se repete? Talvez o olhar, ou quem sabe o sorriso, ou até a cara fechada. E aí está mais uma pista para a jornada. Sério, esse caminho exige determinação e uma boa dose de valentia para reconhecimentos muitas vezes dolorosos. Quantas expectativas frustradas, decepções, é verdade, mas também quantas superações, certo? Ah, vai, dá um sorrisinho. E aí, magicamente, percebemos que ainda guardamos aquela essência, mesmo que no espelho isso pareça estranho. Somos nós? Sim! Somos a mesma pessoa, quase irreconhecível pelas marcas deixadas na caminhada.
E assim, de foto em foto, vamos detectando e alterando aqui e ali algumas grandes verdades que nos guiaram até o momento; os valores e significados que foram compondo nossa sinfonia de erros e acertos, sempre muito relativos, passíveis de transformação. Sempre. Mas, pera aí!, podemos pensar, nossa história é bacana, dava até um livro. Taí, gostei do meu desempenho!
 Não desistimos, vivemos situações incríveis, desafios, sabe-se lá quantos medos superamos, quantas alegrias  distribuímos... e, se chegamos até aqui, há que se continuar pela estrada! Se há momentos em que admiramos nossa forma de estar no mundo, também há outros onde percebemos que há muito trabalho pela frente, mas sem dúvida, podemos ainda percorrer mais caminhos que a vida nos oferece. Então, amigos, o que vocês acham? Autoestima é uma montanha russa, ou quem sabe, depende do nosso investimento?

Rutty Steinberg 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Cadê minha maleta?


Há momentos na vida em que nos confundimos visitando os terrenos alheios. Sei lá, parece que ficamos fascinados com as descobertas do vizinho sobre a vida, questionamos nossas escolhas, o rumo que temos seguido e que produziram resultados naturalmente diferentes. Isso mesmo, nos comparamos, usando óculos com um grau inadequado, o que deturpa completamente as conclusões a que chegamos. “Tenho que”, “não devia isso”, “se eu...” e ficamos surdos aos gritos da autoestima. Ignorar o que foi aprendido? Esse é o melhor caminho para carregar o mundo nas costas. Depois não reclame! Questionar é importante, mas retornar ao centro, aos próprios desafios que ficaram parados no meio do caminho, anteriormente escolhidos, diga-se de passagem, exige nova determinação, que inclui o que foi aprendido nessas visitas ao mundo do outro.
Às vezes penso que não nos damos conta de que, mal ou bem, estamos sempre aprendendo coisas aqui e ali, e incorporando as novas informações ao nosso sistema, conscientemente ou não. Não há como fugir da mudança e do movimento constante, que vai gerando novas ideias, emoções, atitudes, na maioria das vezes nem suspeitadas por nós, despertando habilidades esquecidas no fundo do baú, mas que não perdem sua efetividade apesar da nossa inconsciência. Quando nos sentimos “diferentes”, o susto no espelho cria um surto de ansiedade e queremos voltar. Mas voltar para onde?
Há algum outro lugar possível a não ser para dentro de nós, amparados no conhecido conselho do “conhece-te a ti mesmo”, e humildemente recolher nossas apostilas existenciais, onde estão registradas as experiências? Mas, já é um começo fazer uma revisão da própria história, segundo nossa parca visão, das superações, dos momentos deliciosos, sem jamais negar que eles aconteceram. Porque é nessa jornada que encontramos a nossa maletinha com as ferramentas esquecidas, bagagem que nunca nos abandonou. Ao contrário, nós é que a deixamos de lado. Cada uma das ferramentas ali carrega símbolos, alguns mortos e outros mais brilhantes, contendo em si nossas lindas histórias, velhos treinamentos e novas lições. Ao acender a emoção de estarmos vivos, aí sim, estamos de volta, porque entendemos que nada foi em vão, e a ordem do dia é: “Prossiga!”.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

QUEM É O RICO, AFINAL?


Enquanto pensava no tema que me foi sugerido para o dia de hoje, transitava pela casa, colocando uma coisinha aqui, outra ali, como faço todas as manhãs, porque me ajuda a despertar. Assim, as ideias vão se organizando também. Muitas vezes me lembro de colocar caderno e caneta por perto, para não perder as coisas que vão me passando pela cabeça e pelo coração. Movimentando o corpo ao sabor de minhas músicas selecionadas, a alma vai se situando, e não fica encostada no piloto automático, interferindo na trava.
Pois bem, como ia dizendo, o tema de hoje, da riqueza, dá panos pra manga, né? Não quero falar de economia, de política, de regras vindas de fora que proliferam atualmente na mídia, nos deixando mais confusos do que esclarecidos. Não! Quero falar da riqueza da vida, da evolução da consciência, da paz interna que nos leva saudavelmente pela estrada do pensar e do agir. E... do criar! Deixar que nosso mago interior se manifeste e confirme que bruxo, feiticeiro, é aquele que transforma! E transforma o que, poderíamos nos perguntar...mas vê lá, nada de discutir o sexo dos anjos! Queremos algo que possamos aplicar imediatamente, por favor, com resultados imediatos. Sr. Mago, não nos deixe esperando, temos pressa, viu?
Pois é, comecemos a pensar: não é assim que perdemos uma das primeiras fontes de riqueza? Não nos lembramos de questionar, avaliar aquilo que está na nossa frente, sem julgar com os nossos usuais preconceitos, sombrios, e com um tempero de crianças mimadas e orgulhosas. Está mais do que na hora de colocarmos na mesa de nossa imaginação, imitando o mago do tarô, tudo o que temos, de bom ou de não tão bom, ou melhor, o que a nossa limitada vista alcança, e conectados com a energia do bem maior para si e para todos, e à Força Universal que nos nutre, tentarmos combinações que se harmonizem. Há dentro de nós uma espécie de bússola que dirige os trabalhos, mas que anda sem função, porque nem percebida é. 
Mas, “Adiante!”. Ah, isso me lembra uma professora de História no ginásio que usava essa expressão nas nossas provas orais, quando encostados no quadro negro, tremíamos de medo de não acertar a pergunta imediatamente. Nada a ver essa memória? Engano. Andamos um pouco assim, ultimamente, não é? Não dá tempo para pensar, escolher, ter a coragem de admitir aspectos mal resolvidos que nos impedem de ampliar a consciência. E aí, também deixamos escapar outra fonte...que pena!
Sigamos buscando outros mananciais. Que tal se a riqueza também for representada pela alegria de viver? Como??? Será que não estão vendo o que está acontecendo ao nosso redor? Crises, guerras, violência, não, não dá, desencanem! Bem, só sei que estressados e dando “piti” não ajudamos em nada. Prudência, ok, mas é exatamente por distúrbios, digamos assim, na alegria de viver, que não conseguimos mudar em nada as coisas. Sim, porque alegria de viver não significa ser rato de baladas, campeão de curtidas nas redes sociais, sorrisos falsos, e videozinhos com mensagens no celular, que quando são de grupos incluem centenas de figurinhas apitando em nossos ouvidos a cada segundo. Tenha coragem e responda agora: você já tirou o som? Só rindo, mas isso já é um começo, um sorrisinho, mesmo que meio amarelado. 
Mas vamos lá. Alegria de viver talvez queira dizer se sentir pertencendo, sendo útil, doando talentos para a vida, que espera isso de nós. Viver deveria ser gratificante, êta, palavrinha mágica! Concordam? Em geral, costumamos nos perguntar o que esperamos da vida, como se não estivéssemos satisfeitos com o que ela já nos deu, presenciando sua beleza, lições,mesmo que pelo lado avesso, e um monte de joias maravilhosas que ainda nem sonhamos. Não é ela que nos oferece a alegria de estar junto do outro e participar de encontros amorosos, ou de desencontros que nos salvam de quedas em buracos fundos? E, quando prestamos atenção, aprendemos a amar cada gesto, a superar desafios sem conta que nos fortalecem, no final das contas. No entanto, em meio a reclamações, a gente se acha muitas vezes pobre: reclama, sobe no palco da vítima, e no centro, clama por mais luz. Vamos combinar, todos nós já passamos por isso. Graças a Deus estamos, pouco a pouco, nos afastando desse show. 
Tenho certeza de que muitos estão engajados nesse trabalho sem fim, ainda bem, buscando milhares de outras fontes de riqueza. Enxergando com novos óculos, todos nós adoraríamos aprender de suas vivências, das supostas falhas que levaram ao seu crescimento, e das descobertas que fizeram pela viagem misteriosa e criativa que é a vida. Esses sabem que cada um de nós tem um tesouro dentro de si, a ser compartilhado, e que se dele não cuidarmos, como flores que não são regadas, ele murcha, e vira solidão. 

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Escolha

Seu Geraldo abriu a porta de sua minúscula casinha, cercada por árvores e plantas, como fazia todos os dias. Respirou profundamente o ar fresco, abrindo os braços, cumprimentando o sol. Em seguida, voltou-se para dentro, onde fervia a água de seu café. O cheirinho do pó lhe trouxe o prazer de todas as manhãs, quando separava sua caneca favorita, sentava-se no degrau pertinho da porta, meditava e se preparava para o contato com o mundo. Era assim, depois dos 50, que refletia sobre a vida, hábito que vinha mantendo. Alguns diriam na mais absoluta solidão, mas não era assim que Seu Geraldo se sentia. Pelo contrário, sentia-se imensamente grato pelas experiências que o haviam trazido até ali.
Posicionou a caneca no degrau e sorriu ao pensar na ousadia de buscar seu próprio espaço, realizando seus ideais, decidindo seu destino. E, inspirado talvez pela brisa suave e perfumada, pensou em seu crescimento, nem tanto materialmente, de acordo com a visão de alguns, mas também nem um pouco medíocre. Os bons momentos estavam registrados em cada célula, onde sentir-se poderoso sempre ditou as regras, incluindo a contestação do que não achava correto. Tinha conhecido algumas de suas várias faces, nem sempre santo, mas parte de seu amadurecimento, onde aprendera a integrar a espiritualidade e seus valores, da maneira mais humana que sabia. De olhos fechados, numa espécie de transe, lembrou-se dos inúmeros projetos fertilizados, dos rompimentos de prisões controladas por corações egoístas e de como livrou-se de boa parte, passo a passo, daquilo que não tinha mais sentido em sua também mais humana interpretação. Nem tudo tinha sido perfeito, mas conseguiu abrir caminho para renovações, enfrentando desafios e obstáculos, apesar dos medos e inseguranças que achava não ter negado, procurando não machucar o que estava ao redor, se fosse possível. Nem sempre havia conseguido, mas perdoava-se por isso. E agora, um novo ciclo, o mantinha envolvido por aquela solidão que cura, que não paralisa diante do medo de olhar para si mesma, ele pensava. Entendia que lá no fundo da alma, outros valores lhe trariam a posse de novos desejos, livre agora para escolher e viver o que quisesse, e o que ainda pudesse, sem as restrições dos que privilegiam projetar falsas imagens ao longo da estrada. A força agora vinha dessa solidão, que gerenciava, à sua própria maneira; das incertezas, incluindo aí voos altos e parcerias de outras dimensões. Estava cuidando de seus interesses, finalmente, procurando associar-se à luz, aquela que realiza nosso potencial divino, seja lá o que isso queira dizer. Saboreou o café, e bons observadores perceberiam o sorriso que se manifestou junto ao olhar brilhante.
Seu companheiro se aproximou, o fiel cãozinho, que balançando o rabinho deitou-se ali, à espera das mãos carinhosas que sempre o afagavam. Iriam daqui a pouco caminhar juntos e cuidar das plantas, e em seguida sairiam à rua para um passeio gostoso. De olhos fechados, Seu Geraldo permitiu-se alçar voo, e suavemente deixou-se levar...
Vestida de coincidência, passando ali pela porta, inocentemente, ele viu uma mulher. Não uma mulher comum,  daquelas que trazem mais zona de conforto para a vida de um homem, mas aquela que havia sido sua grande paixão há anos atrás. Bem que ele tentou evitar, mas ao mesmo tempo, uma força cheia de curiosidade o empurrou para o encontro, ou melhor, reencontro, com a musa de seus pensamentos mais orgulhosos. Então, ela sobrevivera. E estava cheia de brilho, encantadora, sedutora na sua fase madura. Seu coração bateu forte ao abraço impulsivo que os dois deram, sem sequer um pensamento invasor que atrapalhasse aquela transmissão amorosa, atrasada, é verdade, mas ainda assim quente. E como! Palavras e comentários sem grande importância, das que usamos em reuniões onde queremos ser simpáticos e educados, moveram esses poucos minutos que se esgotaram rapidamente. Seu Geraldo se transformou. Nada permaneceu morno a partir de então. A sublime paz inicial deu lugar aos tais novos valores aos quais nos referimos anteriormente. Memórias que andavam estagnadas vieram à tona, e a primeira coisa foi rever, ali mesmo, sua imagem no espelho que andava embaçado pela falta de uso. Reparou que havia envelhecido, nenhuma novidade, mas agora isso lhe doía. Não encontrava mais dentro de si a coragem e a ousadia de que tanto se vangloriava. Não sabia como aplacar esse amor que ainda vibrava em seu coração, e que, como um gênio aprisionado na garrafa, ao ser solto, procurava expandir-se, manifestar-se. E agora? De repente, num desses impulsos que chegam sabe-se lá de onde, se viu correndo, abrindo novamente a porta e indo atrás da mulher de seus sonhos, que milagrosamente o esperava do lado de fora. Ficaram os dois frente a frente, os olhares se transformando em ímãs para um beijo tardio.
Surpreso com as lambidas carinhosas de seu amiguinho, Seu Geraldo despertou do devaneio. O voo havia terminado, e novamente a queda de cada dia, que nunca superou,  o chamava para levantar-se e prosseguir. Acariciou mais uma vez seu cãozinho, e ali ficou, morno, respirando o tempo perdido, os passos que não foram dados, a tal solidão que cura. E resignado, recolheu a caneca de café, enquanto recolhia também as lágrimas que poderiam desafogar-lhe a alma. A mensagem vinda dos recônditos não alcançara seu alvo? Será? Parece bem mais com uma escolha, daquelas que ofuscam o brilho da vida, mas ainda assim direito de todos nós.

OUTRO DIA EU SONHEI...



OUTRO DIA EU SONHEI...
Ao chegar em casa, verifiquei que a porta da sala estava deslocada, encostada numa parede, deixando o espaço aberto para quem quisesse entrar. Nada estava fora de lugar, mas isso me assustou, afinal, não tinha sido avisada de nenhuma obra. Seguindo a lógica do sonho, onde tempo e espaço propiciam voos, fui averiguar o fato, e percebi que na casa vizinha estavam fazendo obras. Ali, com muito esmero, alguém estava pintando uma parede, e na janela, logo acima, eu via flores coloridas. Alguém, daquele tipo que aparece em sonhos sem ser visto, me explicou que especialistas estavam reformando o lugar, dando a ele nova cara. Fiquei contente, apesar de um pouco incomodada com a provisória falta de privacidade, mas aceitei o fato. Saí descontraída para a rua, procurando algo fora que me distraísse por algum tempo. Lá, encontrei a vizinha, dona da casa que estava sendo pintada, antiga conhecida minha, que estressada, não aceitou meu convite para nos distrairmos juntas. Ela estava ocupadíssima, ou achava que estava, e não podia relaxar nem por um segundo. Tentei convencê-la, mas não deu certo. Estava fechada em suas preocupações, surda para coisas novas mais divertidas e leves. Uma pena, pensei, mas segui meu caminho, feliz com a reforma de algo que andava velho, sem graça, com pouca esperança de renovação. Fui caminhando pelas ruas, e me lembrei dos pedidos que havia feito para os céus, do meu jeito simples, para que algo se transformasse. A resposta veio à galope: a primeira coisa que aconteceu foi a retirada da porta de minha casa, um possível alerta sobre a questão dos limites.
A quantidade de símbolos, o que torna os sonhos uma fonte de riquezas, rendeu inúmeros pontos de reflexão que me preencheram o dia, onde ainda cabem múltiplas interpretações, à escolha dos leitores. A primeira ideia que me ocorreu foi sobre a diferença entre colocar limites nos nossos assuntos em vários níveis, e fechar o coração, endurecê-lo. Quando digo não a algo ou a alguém, qual intenção me dirige? A raiva e a vontade de revanche por algo que considero injusto? Ou porque acho que não deva ter total disponibilidade para satisfazer o outro, coisa que se deve geralmente a sentimentos idiotas de culpa? Dizer não atrai caras feias, promessas de rejeição, mas, se o coração estiver aberto para compreender o que está além de nosso umbigo, não trará consequências sérias. Talvez uma discussãozinha, ou um biquinho emburrado que vai passar. Mas, se der de cara com um coração fechado, aí, é guerra! Tsk,tsk, preocupante... e será mais se a porta não for recolocada de maneira mais adequada.
Quantas vezes nos equivocamos, deixando que em nome de sei lá o que, entre na nossa vida quem quiser, da maneira que quiser, e depois nos pegamos resmungando e colocando a culpa nas limitações alheias, que vimos e fingimos não ver; quantas vezes, movidos pelo lado sombrio do qual ninguém escapa, fechamos a mesma porta para algo que poderia florir nossos dias, por conta do medo, ou seguindo tudo menos a nossa intuição; e quantas vezes deixamos escapar entre os dedos o que nos deixava felizes e nem sequer sabíamos, para depois chorarmos sozinhos nos cantos escuros? E ainda, quantas vezes nem nos damos conta dos nossos pensamentos e sentimentos que passeiam livremente, gerando qualquer tipo de manifestação pela vida afora?
Quem sabe nosso coração anda fechado para o sim e para o não, inundado pela dor das inúmeras frustrações de expectativas? Se elas tiverem dominado a vida, roubado a esperança, aqui confundida com ilusões, aí é possível que não se acredite mais em muita coisa, o que é uma lástima. Se nossos sonhos viraram pó, sério, não há outros para colocar em seu lugar? Será que a superação dos nossos tropeços se dá somente através de ocupações que funcionam no piloto automático? Quando a solidão se instala, e seu único antídoto passa a ser banhar-se nas águas das coisas materiais, ostentando, desprezando a dor do outro, uma vez que ninguém se importou com a nossa, é hora de soar o alarme. Sem acreditar mais em mudanças internas, já que tudo foi projetado no mundo lá fora, compaixão e desapego são desprezados, sem que pelo menos uma semente de amor brote, desobstruindo o coração para que as águas estagnadas se movimentem. A possibilidade de um novo rumo está impedida por mágoas, ressentimentos. Porta fechada.
Mas, ainda bem que sabemos que nem todas as ideias dão certo, e que as frustrações fazem parte da vida. Como dizia um amigo meu, continuemos tentando abrir caminho para novos planos. Vale lembrar que a avaliação de sucesso ou fracasso é sempre muito relativa, mora em nossa intimidade, e depende basicamente das expectativas que temos sobre o que criamos. Não tem nada a ver com que os outros criaram para não se sentirem incomodados com as diferenças. Mudar de rumo, com uma forcinha vinda da nossa própria busca de apoio, e a firme intenção de colocar mais aprendizagem na bagagem é uma boa ideia. Porta aberta.
Enfim, com uma porta bem colocada, é possível enxergar de forma mais nítida o que o universo nos traz de maneiras surpreendentes, porque ele traz mesmo! E que ele continue então nos trazendo bons sonhos!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Com Quantos Contos se Faz um Mundo?



Quando recebi o convite para participar do projeto Alfabetização Solidária, escrevendo um conto, imediatamente me senti motivada. É muito gratificante ser parte de um grupo bem intencionado, contribuindo com nossa parcela. 
Os contos estão lindos, e o resultado está aí! Feito! Publicado "Com Quantos Contos se Faz um Mundo?". 

https://eldessaullo.com/2016/10/03/com-quantos-contos-se-faz-um-mundo/


"Com Quantos Contos se Faz um Mundo?" tem 100% de seus royalties revertidos para o projeto Alfabetização Solidária (Alfasol), que já atendeu mais de 5,5 milhões de alunos, capacitou cerca de 260 mil educadores, beneficiou 2.200 municípios, distribuiu mais de 130 mil óculos e também livros e acervos bibliográficos para 618 mil alunos e educadores. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Passeando pelo mundo digital


A necessidade faz a gente ir à luta, não é? Lembro quando, morando fora do Brasil, precisei configurar uma impressora nova cujo manual era como um pergaminho a ser decifrado. Celular na mão, falando com uma amiga brasileira que tinha uma igual configurada por seu marido, lá estava eu, no chão, cercada por fios e plugs e mensagens alienígenas na tela, ouvindo coisas do tipo: "Tá vendo uma rodelinha rosa? Pega o fio rosinha.Clica do lado direito... Ih, pera, deixa eu perguntar pro maridão...". E assim, entre chamadas no celular, gargalhadas e um certo desespero, conseguimos os três resolver a parada. Foi assim também, metendo a cara, que aprendi a ler livros enormes baixados no computador, criando um espaço confortável, pernas pra cima, regado a biscoitinhos e café.  Era isso ou nada de leitura. Ah, não, desistir, jamais!
E agora, eis-me às voltas com a abertura de novos espaços virtuais, outro desafio pela frente. Sei que não sou a única a perguntar "o que é isso?"Continuo utilizando o famoso "quem tem boca vai a Roma". Afinal, todos nós precisamos "atualizar" procedimentos digitais no dia a dia, enfrentando termos estranhos colocados a nossa frente como se fossem a coisa mais natural do mundo, contendo promessas de interlocução, de sucesso nos relacionamentos, e outras coisas que nem sabemos o que é. Cliques que valem ouro, botões indicativos disso ou daquilo, um mundo de informações novas, que vão rastejando até derrubarem os dinossauros que ainda vivem em nossos hábitos. Como não é sábio a gente fugir de desafios, vamos perdendo o medo de clicar. Gradativamente, é verdade, ou por esbarrões inocentes nas teclas, mas, enfim, sigamos em frente.
Da mesma maneira que nos comportamos quando somos turistas, nos deslumbrando com algum ponto interessante do passeio, tirando fotos, respirando alguma beleza, vamos transitando pelas descobertas, quase sempre com o auxílio da nova geração, mestres dos cliques, que sorriem diante de nossas dificuldades. De braços dados, saímos também clicando por aí, descobrindo que continuamos vivos mesmo quando erramos e tudo se apaga magicamente. Siglas, símbolos, ícones, janelas, uma terminologia que vai rompendo barreiras, como numa trilha daquele tipo que a gente não olha pra baixo e fica se perguntando qual é a melhor maneira de não escorregar, ou sucumbir às fantasias de morrer estupidamente.
Ainda bem que existem guias e tutoriais ao longo do caminho, gente de boa vontade que ensina como aproveitar melhor o passeio pelo mundo digital, porque, não sei vocês, mas eu preciso de reforço, como tive na época dos exames de admissão ao ginásio. Venho me tornando mais ousada, e a vontade de fazer as coisas da maneira certa para que funcionem tem me ajudado a apreciar melhor a paisagem, mesmo aprontando situações que acabam se tornando hilárias. Algum tempo depois, é claro.